quarta-feira, 20 de maio de 2026

O Cancelamento e a Raiva

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Por Jânsen Leiros Jr.

Talvez por isso seja tão sedutor: oferece ao indivíduo a sensação de virtude, ao grupo a sensação de pertencimento e às plataformas a recompensa do engajamento.

O debate sobre cancelamento costuma ser tratado como se fosse apenas uma questão de excesso de opinião nas redes sociais. Mas talvez o fenômeno seja mais profundo. Não estamos falando somente de gente intolerante discutindo na internet. Estamos falando de um ambiente em que raiva, identidade e visibilidade passaram a se alimentar mutuamente.

Quando Wilson Gomes afirma que “as pessoas estão viciadas em raiva” e que “a raiva dá lucro”, ele toca num ponto essencial: a polarização contemporânea não é movida apenas por convicções. Ela também é alimentada por mecanismos de recompensa.

A raiva gera engajamento.

O insulto gera reação.

A reação gera alcance.

O alcance gera visibilidade.

E a visibilidade, em muitos ambientes, já passou a ser confundida com relevância.

O cancelamento nasce exatamente nesse território: onde a discordância deixa de ser confronto de ideias e passa a ser tentativa de eliminação simbólica do outro.

Não basta discordar.

É preciso deslegitimar.

Não basta criticar.

É preciso expulsar.

Não basta apontar erro.

É preciso transformar o outro em prova pública de impureza moral.

Mas há outro ponto importante na fala de Angela Alonso. Ela observa que talvez esses fenômenos não estejam espalhados de maneira homogênea por toda a sociedade, mas concentrados em determinados nichos, especialmente na elite cultural, onde a disputa por valores, linguagem, reconhecimento e legitimidade é permanente.

Isso ajuda a ajustar a lente.

Nem toda a sociedade vive cancelando.

Mas parte da sociedade que produz discurso, influência e validação simbólica vive sob essa lógica.

E isso importa porque as disputas da elite cultural não ficam confinadas à elite cultural. Elas descem para a linguagem pública, atravessam a imprensa, contaminam debates institucionais, moldam percepções sociais e, pouco a pouco, ensinam as pessoas a tratar divergência como ameaça existencial.

Quando essa elite transforma divergência em pecado público, nuance em covardia e escuta em concessão indevida ao inimigo, o debate deixa de ser espaço de elaboração e vira tribunal moral.

O problema é que tribunais morais raramente buscam verdade.

Buscam réus.

A democracia precisa de confronto de ideias. Precisa de crítica. Precisa de discordância. Precisa, inclusive, de indignação diante do que é injusto, falso ou desumano.

A indignação, em si, não é o problema. Muitas vezes, ela é necessária. Há situações em que não se indignar também é uma forma de cumplicidade.

O problema começa quando a indignação deixa de ser resposta moral a uma injustiça concreta e se transforma em método permanente de pertencimento, distinção e punição.

Nesse ponto, a virtude pública começa a se deformar em vício coletivo.

Porque a raiva, quando encontra plateia, raramente aceita voltar ao silêncio. Ela precisa de novos alvos, novos culpados, novos rituais de condenação. E as redes entenderam isso melhor do que nós.

Talvez o desafio do nosso tempo não seja apenas “ouvir o outro”. Essa frase já virou quase um clichê, repetido muitas vezes sem custo e praticado poucas vezes com real disposição.

O desafio real é recuperar a capacidade de discordar sem desejar a destruição pública de quem discorda.

É reaprender que crítica não precisa virar linchamento e que convicção não precisa virar arrogância.

Que indignação não precisa virar vício e que justiça não deveria depender da humilhação pública como espetáculo.

Porque uma sociedade que perde a escuta ainda pode gritar muito.

Mas já começou a pensar pouco.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

O Paradoxo da Liberdade - Até onde somos realmente livres?

Por Jânsen Leiros Jr.

 Jean-Jacques Rousseau: “O homem nasce livre, e por toda parte está acorrentado.” (O contrato social)

Immanuel Kant: “A liberdade é a única condição sob a qual a moralidade pode existir

Friedrich Nietzsche: “A liberdade é a vontade de ser responsável por si mesmo.”

John Stuart Mill: “A liberdade de um indivíduo deve ser limitada apenas para evitar danos a outros.”

Peter Drucker: “A liberdade só é possível com responsabilidade.”

Max Weber: “A burocracia desenvolve a forma mais racional de organização, mas pode aprisionar o indivíduo.”

Stephen Covey: “Entre estímulo e resposta há um espaço. Nesse espaço está o nosso poder de escolher nossa resposta.”

Henry Mintzberg: “Gestão é equilíbrio entre controle e liberdade.”

    

 A liberdade é um dos conceitos mais exaltados na história da humanidade, inspirando revoluções, filosofias e sistemas de governança. Entretanto, a liberdade também carrega um paradoxo: até que ponto podemos realmente ser livres em sociedades organizadas por regras, normas e valores coletivos? A resposta para essa questão perpassa a filosofia, o comportamento humano e até mesmo o compliance, uma área cada vez mais presente nas relações profissionais e institucionais.

A Filosofia da Liberdade: Entre a Virtude e a Condenação

Desde a antiguidade, filósofos tentam definir o que significa ser livre. Para Aristóteles, a liberdade estava diretamente ligada à virtude e à racionalidade – ser verdadeiramente livre significava agir com sabedoria e moderação, dentro do que é moralmente correto. Já Jean-Paul Sartre, existencialista do século XX, defendia que o ser humano estava "condenado à liberdade", pois a ausência de um sentido pré-definido para a existência nos obriga a criar nossas próprias regras e a assumir total responsabilidade por nossas escolhas.

Dessa forma, a liberdade se apresenta de formas distintas: para uns, é um espaço de autorrealização; para outros, é um peso, uma angústia de tomar decisões sem garantias absolutas. No entanto, outros pensadores argumentam que a liberdade deve ser compreendida dentro de um contexto de restrições naturais e sociais. Isaiah Berlin, por exemplo, diferencia a liberdade negativa (ausência de interferências externas) da liberdade positiva (capacidade de agir conforme a própria vontade). Ele alerta que uma busca desmedida por liberdade positiva pode resultar em imposições coletivas que paradoxalmente restringem a autonomia individual.

Além disso, Thomas Hobbes argumenta que, sem um poder central regulador, a liberdade absoluta levaria ao caos e ao conflito, transformando a sociedade em um estado de guerra de todos contra todos. Para ele, a liberdade deve estar submetida a um contrato social que garanta a ordem e a segurança. Já Michel Foucault questiona se a liberdade é de fato alcançável, argumentando que sistemas de poder e discursos sociais moldam nossas percepções e escolhas, tornando a ideia de liberdade individual mais complexa do que parece à primeira vista.

Essas visões contrastantes nos fazem refletir: a liberdade é um direito absoluto ou um conceito condicionado pela estrutura social? Somos verdadeiramente livres ou apenas nos movemos dentro dos limites invisíveis impostos pela cultura, pelas instituições e pelo próprio inconsciente coletivo?

Comportamento e Limites: A Liberdade Individual e a Responsabilidade Coletiva

No âmbito do comportamento humano, a liberdade individual frequentemente colide com a necessidade de harmonia social. Vivemos em sociedades interconectadas, e nossas ações afetam direta ou indiretamente outras pessoas. A era digital exacerbou essa tensão: redes sociais permitem a livre expressão, mas também impõem consequências. Comentários ofensivos podem gerar cancelamento; posturas controversas podem custar empregos.

Isso nos leva a um dilema: seríamos realmente livres se soubéssemos que cada ação pode nos trazer consequências imprevisíveis? A liberdade sem responsabilidade pode se tornar uma forma de caos, ao passo que a responsabilidade sem liberdade pode ser um instrumento de opressão. O equilíbrio entre esses polos é uma das grandes questões contemporâneas.

John Locke, defensor do liberalismo clássico, afirmava que a liberdade deve ser exercida dentro de um arcabouço de leis que protejam tanto os indivíduos quanto o bem coletivo. Sua visão sugere que a verdadeira liberdade não está na ausência de limites, mas na existência de regras justas que permitam a convivência social sem opressão.

Por outro lado, Hannah Arendt argumentava que a liberdade se manifesta plenamente na esfera pública, através da participação ativa no debate e na política. Para ela, a liberdade não é apenas um direito individual, mas uma construção coletiva. No entanto, essa perspectiva levanta um problema moderno: será que, na era digital, o excesso de exposição e julgamento público não inibe a liberdade ao invés de fortalecê-la?

A tensão entre liberdade e responsabilidade continua a moldar as relações humanas e institucionais. Se, por um lado, a era digital ampliou as possibilidades de expressão, por outro, tornou o indivíduo mais vulnerável ao escrutínio público e à volatilidade da opinião social. Encontrar o ponto de equilíbrio entre liberdade e responsabilidade talvez seja um dos desafios mais complexos da modernidade.

Compliance[1] e Liberdade: Regras Protegem ou Restrigem?

No ambiente corporativo e institucional, a liberdade é constantemente regulada por normas e códigos de conduta. O compliance surge como um mecanismo para garantir que indivíduos e organizações ajam dentro de padrões éticos e legais. Mas será que regras são restrições à liberdade ou formas de proteção?

Empresas precisam de políticas de compliance para evitar fraudes, discriminação e abuso de poder. No entanto, um excesso de regulamentação pode sufocar a criatividade, a inovação e até mesmo a autonomia dos profissionais. Encontrar um ponto de equilíbrio entre segurança e liberdade é um desafio para qualquer instituição.

Max Weber, um dos grandes teóricos da burocracia, argumentava que regras claras são fundamentais para garantir eficiência e previsibilidade em grandes organizações. No entanto, ele também alertava sobre os riscos de uma racionalização excessiva, que pode transformar instituições em estruturas rígidas e desumanizadas. Por outro lado, Peter Drucker, um dos pais da administração moderna, defendia que a liberdade dentro das empresas é essencial para a inovação e o desenvolvimento de talentos.

O compliance, portanto, não deve ser visto apenas como uma limitação, mas como uma ferramenta de governança que pode garantir tanto a ética quanto a eficiência. O desafio é garantir que ele não se torne um entrave à criatividade, mas um suporte para a construção de ambientes organizacionais equilibrados, onde liberdade e responsabilidade caminhem juntas.

O Paradoxo da Escolha: Mais Opções, Menos Liberdade?

Outro aspecto intrigante do tema é o paradoxo da escolha. Em teoria, quanto mais opções temos, mais livres somos. Mas na prática, um excesso de escolhas pode gerar angústia, indecisão e arrependimento.

Barry Schwartz, psicólogo e autor de O Paradoxo da Escolha, argumenta que a abundância de possibilidades pode nos paralisar em vez de nos libertar. No mundo moderno, somos bombardeados por infinitas opções: carreiras, relacionamentos, estilos de vida. Esse cenário, longe de ampliar nossa liberdade, pode torná-la um fardo. A busca por uma escolha "perfeita" nos impede de agir, tornando a liberdade um labirinto de dúvidas.

Essa ideia também ressoa com a visão de Jean Baudrillard, que apontava que a sociedade contemporânea vive um excesso de consumo e simulações, onde a multiplicidade de opções pode ser ilusória, pois somos constantemente guiados por padrões e influências externas. Em contraste, filósofos como Isaiah Berlin distinguem entre liberdade positiva e negativa, ressaltando que a verdadeira liberdade não está na quantidade de escolhas, mas na capacidade de tomar decisões autênticas e alinhadas com nossos valores internos.

Dessa forma, o excesso de opções pode tanto ampliar quanto restringir a liberdade, dependendo de como as encaramos. A questão central se torna não apenas quantas escolhas temos, mas se conseguimos fazê-las sem cair em armadilhas de insegurança e arrependimento.

Liberdade e Ética: Há Limites Necessários?

A liberdade sem ética pode levar ao abuso de poder, à desigualdade e à injustiça. Por isso, sociedades democráticas impõem regras para garantir que a liberdade de um indivíduo não prejudique a de outro. Mas quem define esses limites? E como garantir que essas regras não se tornem instrumentos de repressão?

Essa tensão é visível em debates sobre discurso de ódio, regulamentação da internet, direitos individuais e segurança pública. Onde traçar a linha entre proteção e censura? Entre liberdade e controle? Questões que continuam a desafiar pensadores, legisladores e a sociedade como um todo.

Pensadores como John Rawls enfatizam que a liberdade deve estar vinculada a princípios de justiça e equidade, enquanto Karl Popper alertava sobre o paradoxo da tolerância: até que ponto uma sociedade deve tolerar o intolerável sem comprometer sua própria existência? Por outro lado, Slavoj Žižek[2] argumenta que a regulamentação excessiva pode transformar a liberdade em um conceito esvaziado, onde a escolha se torna uma ilusão dentro de um sistema já predeterminado.

Dessa forma, o debate sobre os limites da liberdade continua sendo essencial para a construção de sociedades justas e equilibradas.

Conclusão: O Equilíbrio Entre Liberdade, Ética e Responsabilidade

A liberdade não é um conceito absoluto. Ela existe dentro de um espectro, onde ética, comportamento e regulamentação desempenham papéis fundamentais. O verdadeiro desafio não é buscar uma liberdade ilimitada, mas sim entender até onde podemos ir sem comprometer a convivência e o bem comum.

Seja na filosofia, no comportamento ou no compliance, a liberdade sempre estará ligada à responsabilidade. A chave não está em eliminar regras ou restringir excessivamente as escolhas, mas sim em encontrar um equilíbrio saudável, onde a liberdade possa ser exercida sem destruir a estrutura que a torna possível.

Além disso, autores como Norberto Bobbio destacam que a liberdade deve ser analisada em seu contexto social e político, pois os direitos e deveres individuais dependem da organização da sociedade. Já Axel Honneth argumenta que o reconhecimento mútuo é essencial para que a liberdade seja de fato equitativa e respeitada por todos.

                Portanto, o debate sobre liberdade e responsabilidade continua sendo central para a evolução das sociedades. A reflexão sobre até onde podemos ir e quais limites são necessários para garantir a dignidade coletiva será sempre um tema em constante transformação.

                "Somos absolutamente livres, para voar dentro das gaiolas que escolhemos" - Jânsen Leiros


[1] Compliance é o conjunto de práticas e normas adotadas por empresas e instituições para garantir que suas atividades estejam em conformidade com leis, regulamentos e padrões éticos, prevenindo riscos legais e promovendo uma cultura organizacional íntegra e transparente.

[2] Slavoj Žižek – Filósofo e psicanalista esloveno (nascido em 1949), crítico da ideologia contemporânea e do capitalismo global, argumenta que a liberdade muitas vezes é moldada por sistemas de poder que limitam as escolhas individuais sem que percebamos.