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Por Jânsen Leiros Jr.
Talvez
por isso seja tão sedutor: oferece ao indivíduo a sensação de virtude, ao grupo
a sensação de pertencimento e às plataformas a recompensa do engajamento.
O
debate sobre cancelamento costuma ser tratado como se fosse apenas uma questão
de excesso de opinião nas redes sociais. Mas talvez o fenômeno seja mais
profundo. Não estamos falando somente de gente intolerante discutindo na
internet. Estamos falando de um ambiente em que raiva, identidade e
visibilidade passaram a se alimentar mutuamente.
Quando
Wilson Gomes afirma que “as pessoas estão viciadas em raiva” e que “a raiva dá
lucro”, ele toca num ponto essencial: a polarização contemporânea não é movida
apenas por convicções. Ela também é alimentada por mecanismos de recompensa.
A
raiva gera engajamento.
O
insulto gera reação.
A
reação gera alcance.
O
alcance gera visibilidade.
E a
visibilidade, em muitos ambientes, já passou a ser confundida com relevância.
O
cancelamento nasce exatamente nesse território: onde a discordância deixa de
ser confronto de ideias e passa a ser tentativa de eliminação simbólica do
outro.
Não
basta discordar.
É
preciso deslegitimar.
Não
basta criticar.
É
preciso expulsar.
Não
basta apontar erro.
É
preciso transformar o outro em prova pública de impureza moral.
Mas há
outro ponto importante na fala de Angela Alonso. Ela observa que talvez esses
fenômenos não estejam espalhados de maneira homogênea por toda a sociedade, mas
concentrados em determinados nichos, especialmente na elite cultural, onde a
disputa por valores, linguagem, reconhecimento e legitimidade é permanente.
Isso
ajuda a ajustar a lente.
Nem
toda a sociedade vive cancelando.
Mas
parte da sociedade que produz discurso, influência e validação simbólica vive
sob essa lógica.
E isso
importa porque as disputas da elite cultural não ficam confinadas à elite
cultural. Elas descem para a linguagem pública, atravessam a imprensa,
contaminam debates institucionais, moldam percepções sociais e, pouco a pouco,
ensinam as pessoas a tratar divergência como ameaça existencial.
Quando
essa elite transforma divergência em pecado público, nuance em covardia e
escuta em concessão indevida ao inimigo, o debate deixa de ser espaço de
elaboração e vira tribunal moral.
O
problema é que tribunais morais raramente buscam verdade.
Buscam
réus.
A
democracia precisa de confronto de ideias. Precisa de crítica. Precisa de
discordância. Precisa, inclusive, de indignação diante do que é injusto, falso
ou desumano.
A
indignação, em si, não é o problema. Muitas vezes, ela é necessária. Há
situações em que não se indignar também é uma forma de cumplicidade.
O
problema começa quando a indignação deixa de ser resposta moral a uma injustiça
concreta e se transforma em método permanente de pertencimento, distinção e
punição.
Nesse
ponto, a virtude pública começa a se deformar em vício coletivo.
Porque
a raiva, quando encontra plateia, raramente aceita voltar ao silêncio. Ela
precisa de novos alvos, novos culpados, novos rituais de condenação. E as redes
entenderam isso melhor do que nós.
Talvez
o desafio do nosso tempo não seja apenas “ouvir o outro”. Essa frase já virou
quase um clichê, repetido muitas vezes sem custo e praticado poucas vezes com
real disposição.
O
desafio real é recuperar a capacidade de discordar sem desejar a destruição
pública de quem discorda.
É
reaprender que crítica não precisa virar linchamento e que convicção não
precisa virar arrogância.
Que
indignação não precisa virar vício e que justiça não deveria depender da
humilhação pública como espetáculo.
Porque
uma sociedade que perde a escuta ainda pode gritar muito.
Mas já
começou a pensar pouco.

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